REALIMENTAÇÃO PRECOCE NO PÓS-OPERATÓRIO

Serviços mais ortodoxos têm como rotina o jejum pós-operatório em cirurgias gastrointestinais. A reintrodução de alimentação por via oral somente ocorrerá quando houver resolução do íleo, marcado pelo retorno dos movimentos peristálticos e/ou eliminação de gases e fezes. Sabe-se que o tempo de insuficiência de motilidade é diferente em cada região do tubo digestivo, o estomago demora cerca de 24 horas para recuperar sua motilidade, o intestino delgado de 5 a 7 horas, o cólon direito de 24 a 48 horas e o colón esquerdo de 36 a 60 horas. Por esse motivo, conforme enfatizado em publicações recentes (vide acima), alimentação após 24 horas de laparotomia pode ser oferecida aos pacientes, sendo bem tolerada e o alimento absorvido. 

 

Em uma meta-análise realizada por Lewis e cols., onde foram analisados 11 estudos randomizados e controlados demonstrou-se que não houve significância estatística quanto a deiscência da anastomose entre os grupos que receberam alimentação nas primeiras 24 horas quando comparados com os que permaneceram em jejum por maior período de tempo, o grupo controle. Quanto ao risco de infecção de qualquer natureza comprovou-se que no grupo que recebeu alimentação precocemente o risco foi menor com p=0,036 e resultado similar foi encontrado para o risco de infecção do sitio cirúrgico e pneumonia. O risco de náuseas e vômitos foi maior no grupo que recebeu alimentação precoce com p=0,045. Não houve significância estatística para mortalidade encontrando-se p=0,15. Finalmente fizeram a comparação do tempo de permanência hospitalar onde foi encontrada uma redução de 0,84 dia para o grupo da alimentação precoce o que representa p=0,001. Os resultados deste estudo corrobora com diversos outros, de elevado nível de evidência, os quais tiveram achados semelhantes. Desse modo não há nenhuma evidencia para se deixar o paciente em jejum no pós-operatório por períodos prolongados.

 

Com base no projeto ACERTO, nos casos de cirurgias com anastomose gastrintestinal, entero-entérica, entero-cólica e colorretal se o paciente não estiver apresentando vômitos e aceite,  dieta líquida é oferecida no mesmo dia da operação, caso contrário se começa de rotina no primeiro pós-operatório. Os pacientes submetidos a anastomose esofágica são submetidos ou a jejunostomia ou a colocação de sonda naso-entérica e a alimentação por essas vias inicia-se no primeiro pós-operatório. Nos demais casos, pacientes submetidos a operações de médio porte num contexto de cirurgia geral (cirurgias da via biliar, herniorrafias, cirurgias ano-orificiais) podem ser realimentados com líquidos claros, ainda na sala de recuperação pós-anestésica, sob orientação do anestesiologista e supervisão da equipe assistencial. 

  • A sonda nasogástrica não deve ser usada como rotina.
  • O bloqueio do neuroeixo, associado à anestesia geral, diminui o tempo de íleo em grandes procedimentos abdominais abertos.
  • Não usar opiáceos de rotina na analgesia pós-operatória. Preferir medicações não opiáceas (dipirona, cetrolaco, paracetamol e lidocaína intravenosa, entre outros).
 
  • Em cirurgias da via biliar, herniorrafias, cirurgias ano-orificiais e afins, deve-se oferecer dieta oral no mesmo dia da operação, se possível, imediatamente após liberação dada pelo anestesiologista ainda na sala de recuperação pós-anestésica. 
 
  • Em cirurgias com anastomoses gastrintestinal, enteroentérica, enterocólica ou colorretal, dieta líquida deve começar como rotina no mesmo dia ou no primeiro pós-operatório.
 
  • Em cirurgias com anastomoses esofágicas, a dieta deve começar com 12 a 24h de pós-operatório por jejunostomia ou por sonda naso-entérica.
 
  • A regra geral recomendada pelo Projeto ACERTO é não prescrever fluidos cristaloides em pacientes sob dieta oral/enteral, salvo exceções. Indica-se um acesso venoso hidrolisado, e não um "soro de manutenção", para a condução de medicamentos intravenosos.

© copyright 2014 | Alberto Bicudo Salomao 

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