Uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) no pós-operatório pode aumentar o risco de fístulas anastomóticas.

 

JAMA Surg. Published online January 21, 2015. doi:10.1001/jamasurg.2014.2239

 

 

 

 

 

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Periop. 27 de Janeiro de 2015.

 

 

Segundo a conclusão de um estudo recentemente publicado on-line 21 de janeiro via JAMA Surgery,  pacientes que receberam anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), após cirurgia colorretal de urgência têm um risco aumentado de 24% para a fístula no pós-operatório, no seguimento de 90 dias.

 

Segundo recomendação do estudo, "Tendo em conta que outros regimes de analgésicos são eficazes e bem tolerados, esses dados podem ser suficientes para alguns cirurgiões alterarem seus padrões de prática", escrevem os autores Timo W. Hakkarainen, MD, da Universidade de Washington Medical Center, Seattle, e colegas.

Trata-se de um estudo de coorte retrospectiva (estudo nível de evidência 2B), envolvendo um número expressivo de casos: foram revisados dados de 13.082 pacientes, em 47 hospitais do estado de Washington. Trata-se de indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica ou colorretal, envolvendo anastomose entre 1 de Janeiro de 2006 a 31 de dezembro de 2010. Os dados dos pacientes foram registrados no  "Surgical Care and Outcomes Assessment Program", sistema de informação que conecta vários serviços de saúde do referido estado americano. A maioria dos pacientes eram do sexo feminino (60,7%), com média de idade de 58,1 anos, e todos os pacientes foram avaliados em um follow-up de 90 dias, considerando a data da cirurgia.

 

Quase um quarto (24,1%) dos pacientes usaram AINEs, e a taxa global em 90 dias de complicações anastomóticas foi de 4,3% para todos os pacientes (4,8% no grupo de AINE em comparação com 4,2% no grupo de não-AINE; p=0,16 ). Os pacientes do grupo AINE tendiam a ser mais jovens, tinham menos comorbidades, e foram submetidos a procedimentos eletivos com mais freqüência do que os pacientes que não receberam AINEs. Realizada regressão logística para controle de covariáveis de confundimento (incluindo a idade, sexo, tipo de procedimento, e comorbidades), observou-se que houve um risco aumentado de 24% para fístulas entre os pacientes que receberam AINEs após a cirurgia (odds ratio [OR], 1,24; IC95% 1,01-1,56; p=0,04).

 

Esta complicação ocorreu de forma isolada e teve relação mais direta com o fator de risco uso de AINEs, principalmente para pacientes submetidos à cirurgia colorretal de urgência. Não obstante o achado, não houve associação significativa entre morte em 90 dias e administração de AINE. No estudo, os fatores de risco associados a óbito em 90 dias foram  risco cardiológico pré-operatório elevado e também a ocorrência de eventos  cardíacos no pós-operatóio.

 

É importante ressaltar as limitações do estudo, tais como a falta de dados sobre o uso de AINEs no pré-operatório, bem como especificamente quais foram os AINEs administrados, em qual dose e por quanto tempo. Nesse contexto, em sua discussão os autores fazem elucubram  tendo em conta os padrões gerais da prática dos hospitais participantes, que os AINEs não seletivos provavelmente foram usados na maioria dos casos, muito embora tal informação careça de comprovação.

 

"Para determinar o papel de AINEs em cirurgia colorretal, as avaliações futuras devem considerar formulações específicas, o efeito da dose, mecanismo, e outros domínios de resultados relevantes, incluindo o controle da dor, complicações cardíacas e recuperação global", conclue o Dr. Hakkarainen e colegas.

 

Em relação ao desenho metodológico da pesquisa, devemos ter em mente ainda a limitação, comum aos estudos observacionais de uso de medicamentos, em relação a dificuldade em separar o efeito de uma medicação a partir das características básicas das pessoas. Entende-se que recomendações que levem a impacto em termos de tomada de decisão devam ser oriundas de estudos de maior grau de evidência, como os ensaios clínicos randomizados. Outrossim, apesar de suas limitações, os estudos de farmacoepidemiologia como o presente continuam a ser uma importante ferramenta para avaliar os medicamentos que são usados na prática clínica, levantando hipóteses importantes sobre seus potenciais benefícios e/ou riscos. 

 

O financiamento para este estudo foi fornecido pela agência financiadora de pesquisa em saúde Comparative Effective Research Translation Network, pertencente ao  Washington State Life Science Discovery Fund; e por uma bolsa do National Institutes of Health. Os autores não declararam relações financeiras relevantes.

 

JAMA Surg. Publicado on-line 21 de janeiro de 2015. 

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