USO DE PRÓTESE NO TRATAMENTO DA DOENÇA DEGENERATIVA DO DISCO CERVICAL

 

Conteúdo editado à partir do publicado por: Mariana Vargas Furtado, Fernando H. Wolff, Michelle Lavinsky, Jonathas Stiff, Luis Eduardo Rohde, Dra. Carísi Anne Polanczyk, Albert Brasil, Alexandre Pagnoncelli.

 

1. MÉTODO DE REVISÃO DA LITERATURA

 

Estratégia de busca da literatura e resultados:

 

1. Busca de avaliações e recomendações referentes ao uso disco cervical artificial no tratamento de doenças degenerativas elaboradas por entidades internacionais reconhecidas em avaliação de tecnologias em saúde:

• National Institute for Clinical Excellence (NICE)

• Canadian Agency for Drugs and Technologies in Health (CADTH)

• National Guideline Clearinghouse (NGC)

 

2. Busca de revisões sistemáticas e metanálises (PUBMED, Cochrane e Sumsearch).

 

3. Busca de ensaios clínicos que não estejam contemplados nas avaliações ou metanálises identificadas anteriormente (PUBMED e Cochrane). Havendo metanálises e ensaios clínicos, apenas estes serão contemplados.

 

4. Na ausência de ensaios clínicos randomizados, busca e avaliação da melhor evidência disponível: estudos não-randomizados ou não-controlados (PUBMED).

 

Descreve-se sumariamente a situação clínica e a questão a ser respondida, discute-se os principais achados dos estudos mais relevantes e com base nestes achados seguem-se as recomendações específicas.

 

2. CONDIÇÃO CLÍNICA

 

Aproximadamente 60% dos indivíduos com mais de 40 anos possuem evidências radiológicas de degeneração do disco cervical. As causas do processo degenerativo não estão totalmente estabelecidas, mas sabe-se da associação com a progressão da idade que resulta em perda da consistência normal do disco, tornando-os inelásticos. Há desenvolvimento de microfissuras e conseqüente herniação do núcleo, que pode ser seguido por colapso. Eventualmente resulta em formação de esporos ósseos que podem estreitar e bloquear a saída da inervação, resultando em dor e incapacidade. Os sintomas da doença degenerativa do disco cervical incluem dor cervical, fraqueza e parestesias associadas com a radiculopatia e mielopatia.

 

3. TRATAMENTO ATUAL E ALTERNATIVAS

 

Se não tratado, os sinais e sintomas da doença degenerativa do disco cervical podem piorar. Inicialmente, o tratamento é conservador e terapias não invasivas são direcionadas à redução da dor e prevenção de injúrias permanentes na coluna espinhal e inervações. Está indicado repouso, aplicação de frio ou calor local, uso de drogas anti-inflamatórias e analgésicas, exercícios específicos e fisioterapia.

Usualmente, se em 6 meses o tratamento conservador não apresenta resultados ou se o paciente se torna incapaz de realizar as atividades diárias por progressão da dor ou por sintomas neurológicos (radiculopatia e mielopatia), o tratamento cirúrgico é indicado. Existem diversas técnicas cirúrgicas, mas a discectomia e fusão cervical anterior (DFCA) é considerada o tratamento cirúrgico de escolha para a doença degenerativa do disco cervical sintomática de um único nível. O objetivo do procedimento é aliviar a pressão dos nervos espinhais (descompressão) e restaurar o alinhamento da coluna e sua estabilidade. A restauração da estabilidade pode somente ser alcançada com a fusão de um ou mais segmentos cervicais. A resolução da dor e dos sintomas neurológicos é esperada em 80 a 100% dos pacientes tratados. Entretanto, estudos clínicos demonstram degeneração dos segmentos adjacentes, com risco de 25,6% em 10 anos, o que implica que 1 em cada 4 pacientes submetidos ao procedimento com sucesso irá necessitar no futuro de uma nova cirurgia por doença degenerativa em segmentos adjacentes.

Sugere-se que técnica de troca total do disco cervical por uma prótese artificial mantém o espaço anatômico do disco, com a lordose segmentar normal e o padrão de mobilidade fisiológico com os níveis cervicais adjacentes, reduzindo o risco de degeneração acima e abaixo do sítio empregado, sendo o maior racional para o emprego desta nova tecnologia. Também evitaria a morbidade relacionada à imobilização do paciente com emprego de enxertos ósseos autólogos (geralmente fragmentos da crista ilíaca) e potenciais riscos de infecção associados aos enxertos alógenos, empregados na técnica cirúrgica padrão de fusão.

As evidências quanto à indicação e emprego de disco cervical artificial no tratamento de doenças degenerativas da coluna cervical serão descritas a seguir.

 

4. RECOMENDAÇÃO QUANTO AO EMPREGO DE DISCO CERVICAL ARTIFICIAL NO TRATAMENTO DE DOENÇAS DEGENERATIVAS DE DISCO CERVICAL

 

4.1 Objetivo

Determinar se há evidências que suportem o emprego de disco cervical artificial no tratamento de doenças degenerativas de disco cervical.

4.2 Resultados

 

4.2.1 Avaliações de tecnologias em saúde, revisões sistemáticas e recomendações nacionais e internacionais.

• NICE (NHS - Inglaterra): avaliação publicada em novembro de 2005. Substituição de disco intervertebral na coluna cervical.

• Technology Evaluation Center (TEC): avaliação publicada em fevereiro de 2008. Artroplastia com disco intervertebral artificial para tratamento de doença degenerativa de disco cervical.

• CADTH (Canadá – Governo Federal) e NGC (Dept of Health - Estados Unidos): não foram localizadas avaliações específicas.

• Diretrizes nacionais e internacionais: não localizadas Sínteses das recomendações encontradas:

 

Recomendação da NHS 5: evidências atuais sugerem não haver maiores preocupações de segurança com uso de disco intervertebral artificial cervical, havendo evidências de eficácia a curto prazo. Deve ser esclarecido ao paciente as incertezas com relação à eficácia a longo prazo e as opções terapêuticas disponíveis. O procedimento pode ser utilizado em pacientes com hérnia de disco aguda ou espondilose cervical, causando radiculopatia ou mielopatia sintomáticas, nos quais o tratamento conservador não obteve resultados satisfatórios.

 

Recomendação da TEC 4: após revisão da literatura, concluem que não há evidências que suportem o emprego da artroplastia com disco cervical artificial para melhora de desfechos na doença degenerativa da coluna cervical nem há dados sobre segurança há longo prazo.

 

4.2.2 Revisões sistemáticas e meta-análises: não foram encontradas.

 

4.2.3 Ensaios Clínicos Randomizados: 7 localizados

 

Síntese dos Ensaios Clínicos Randomizados:

 

Coric D et al:  publicaram em 2006 um ensaio clínico randomizado que incluiu 33 pacientes com doença de disco cervical em um único nível, com radiculopatia ou mielopatia: 17 pacientes randomizados para uso de disco cervical artificial (Bryan) e 16 pacientes para cirurgia de discectomia e fusão cervical anterior (DFCA). Os pacientes foram avaliados com tomografia computadorizada cervical, exame clínico e neurológico para avaliação de dor e sintomas de incapacidade e com raio-X cervical em flexão e extensão no pré e pós operatório em 1, 3, 6, 12 e 24 meses de seguimento. Houve melhora clínica classificada como excelente em ambos os grupos terapêuticos. No grupo tratado com disco de Bryan houve preservação do grau de angulação do seguimento da coluna cervical tratada, enquanto que no grupo da DFCA houve uma redução da angulação em 6 meses de evolução. Não houve complicações relacionadas ao emprego da prótese. Comentários: não são descritos dados de seguimento de 12 e 24 meses. O estudo não apresenta a análise estatística utilizada (ou se foi utilizada), não comentando se as diferenças encontradas foram estatisticamente significativas.

 

Nabhan A et al: Conduziram um ensaio clínico randomizado que incluiu 25 pacientes com hérnia de disco cervical sintomática com radiculopatia que não responderam ao tratamento conservador: 13 pacientes realizaram artroplastia com implante de prótese Pro-Disc C e 12 pacientes foram submetidos à DFCA. Foram realizados RX de coluna cervical para avaliar a mobilidade cervical em 3, 6, 12 e 24 semanas após o procedimento. Houve redução de mobilidade em ambos os grupos após 24 semanas, entretanto a perda de mobilidade segmentar foi estatisticamente menor no grupo tratado com o disco cervical artificial quando comparada à DFCA. Houve redução da dor em ambos os grupos, mas sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

 

Mummaneni et al: Publicaram em 2007 um ensaio clínico randomizado multicêntrico com 541 pacientes com doença degenerativa do disco cervical em segmento único com radiculopatia e/ou mielopatia não responsiva ao tratamento conservador: 276 pacientes foram randomizados para implante de disco cervical artificial PRESTIGE ST e 265 para cirurgia de DFCA. Os sintomas e sinais foram avaliados em 3, 6, 12 e 24 meses, assim como foram realizados Raio-X de coluna cervical nos mesmos períodos de seguimento. O sucesso cirúrgico global foi considerado se houvesse melhora em escalas de dor, melhora dos sintomas neurológicos, assim como ausência de eventos adversos associados ao procedimento e se o paciente não tivesse sido submetido a novo procedimento cirúrgico durante os 24 meses. Houve melhora da dor em ambos os grupos, sem diferença estatística entre os procedimentos. Entretanto, em relação a melhora dos sintomas neurológicos houve superioridade para o grupo da prótese em 12 e 24 meses de seguimento. No grupo da prótese, 1,1% dos pacientes foram submetidos a nova cirurgia por doença segmentar adjacente, em relação à 3,4% dos pacientes submetidos à DFCA (diferença estatisticamente significativa). A taxa de sucesso cirúrgico global foi de 77,6% no grupo da prótese e 66,4% no grupo da DFCA em 12 meses e 79,3% e 67,8% respectivamente em 24 meses (diferenças estatisticamentesignificativas).

 

Nabhan A et al: Conduziram um ensaio clínico randomizado que incluiu 41 pacientes com evidência clínica de radiculopatia, com déficits neurológicos progressivos, não responsivos ao tratamento conservador: 20 pacientes foram alocados para implante de prótese Pro-Disc C e 21 para cirurgia de DFCA. Sinais e sintomas e controle radiográfico foram realizados em 1, 3, 6, 12, 24 e 52 semanas. Foi observada uma redução da mobilidade segmentar em ambos os grupos após procedimento cirúrgico até 6 semanas de segmentos, com manutenção dos níveis em 52 semanas, mas uma redução estatisticamente menor no grupo da prótese em relação ao grupo de cirurgia padrão. Houve melhora clínica em ambos os grupos, com redução significativa da intensidade da dor, sem diferença estatística entre os grupos.Sasso R C et al 10 conduziram um ensaio clínico randomizado, publicado em 2007, envolvendo 3 centros americanos, que inclui 115 pacientes com radiculopatia ou mielopatia cervical sintomática refratária ao tratamento conservador: 56 pacientes alocados para cirurgia com disco artificial cervical de Bryan (grupo intervenção) e 59 para cirurgia de DFCA. Foram considerados desfechos melhora em escores de dor e qualidade de vida e mobilidade segmentar avaliada por Raio-X da coluna cervical em 3, 6, 12 e 24 meses. Para todos os desfechos clínicos, ambos os grupos apresentaram melhora em relação ao período pré-operatório. Quando comparado com o grupo controle, o grupo intervenção apresentou uma maior taxa de melhora nos escores de dor e qualidade de vida em relação ao grupo controle, em todos os períodos do seguimento. Em relação a mobilidade segmentar avaliada pelo raio-X, a cirurgia com emprego de prótese apresentou melhores resultados quando comparada à DFCA. No seguimento de 24 meses, 6 pacientes necessitaram de nova intervenção cirúrgica, 4 no grupo controle e 2 no grupo intervenção.

 

Sun Peng-Fei et al:  Realizaram um ensaio clínico randomizado com 24 pacientes com hérnia de disco cervical isolada: 12 pacientes foram submetidos à cirurgia com colocação de disco cervical artificial e 12 à cirurgia de DFCA. Os pacientes realizaram Raio-X de coluna cervical em 1 semana, 3 e 6 meses e em 1 ano após o procedimento. Não foi observada diferença estatística entre os dois grupos na mobilidade segmentar cervical avaliada pelo Raio-X. Houve uma melhora clínica dos sintomas nos dois grupos: 75% dos pacientes com prótese referiram efeito clínico excelente e bom em comparação a 82% dos pacientes do grupo DFCA, esta diferença não foi estatisticamente significativa.

 

Anderson P A et al: Publicaram em maio de 2008 um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, para comparação de eventos adversos entre cirurgia com disco artificial de Bryan (grupo investigação) e cirurgia de artrodese cervical anterior (grupo controle). Foi incluído um total de 463 pacientes com doença degenerativa de disco cervical em um único nível sintomática causando radiculopatia ou mielopatia: 242 pacientes no grupo intervenção e 221 no grupo controle. Em ambos os grupos a técnica cirúrgica foi por abordagem anterior, sendo realizada discectomia e descompressão. O seguimento total foi de 24 meses onde foram registrados todos os eventos adversos relacionados ou não ao procedimento cirúrgico. Foi registrado um número significativamente maior de eventos adversos relacionados ao procedimento no grupo investigação em relação ao grupo controle, 33,9% e 29% respectivamente. Isto devido a maior taxa de infecção de ferida operatória superficial, disfagia/disfonia e eventos cardiovasculares. Em um paciente do grupo investigação a prótese necessitou ser removida e realizada fusão dos corpos vertebrais. Não houve diferença estatística no número de eventos neurológicos perioperatórios, 8 no grupo investigação e 7 no grupo controle. Não houve também diferença estatística em eventos neurológicos sensitivos de extremidade superior no pós-operatório, 20,7% no grupo investigação e 18,1% no grupo controle. Assim como não houve diferença estatística nos déficits motores 2,1% e 1,8% respectivamente. Um taxa significativamente maior de pacientes no grupo controle (7,7%) necessitaram de um novo procedimento cirúrgico por persistência de sintomas e pseudoartrose, em relação ao grupo investigação (5,4%). Um total de 11 reoperações em discos adjacentes foi realizada no grupo controle e 8 no grupo investigação no período de 2 anos (P=0,08).

 

 

5. BENEFÍCIOS ESPERADOS

 

5.1 Doença degenerativa segmentar adjacente a longo prazo > 5 anos

Ensaios clínicos com acompanhamento máximo de 2 anos descrevem casos de doença degenerativa segmentar adjacente com o emprego de disco cervical artificial em taxas não inferiores à DFCA. Não há, entretanto, estudos a longo prazo que compararam este desfecho.

 

5.2 Preservação da mobilidade cervical segmentar

Os ensaios clínicos mostram uma superioridade do disco cervical artificial em preservar a mobilidade cervical com resultados superiores à cirurgia de DFCA em até 2 anos de segmento.

 

5.3 Redução de sintomas clínicos

O emprego de disco cervical artificial não foi superior à cirurgia de DFCA em redução de dor e melhora de sintomas neurológicos na maioria dos estudos.

 

 

 

 

 

A cirurgia de substituição de disco intervertebral cervical com disco artificial é tecnologia emergente que tem eficácia sobre sintomas em curto prazo aparentemente semelhante à terapia padrão por descompressão e fusão cervical anterior, com vantagem em manter a mobilidade cervical segmentar (Nível de Evidência A).

 

Como se trata de estratégia de alto custo, sem evidência científica sólida de superioridade e segurança em longo prazo, no presente momento, recomenda-se que esta estratégia seja considerada procedimento experimental ou aplicada apenas a estudos clínicos no tratamento da doença degenerativa discal. Essa recomendação pode ser reavaliada com a publicação de novos estudos com desfechos clínicos relevantes e tempo de acompanhamento prolongado.

 

DATA DA REVISÃO: 2008

 

 

REFERÊNCIAS:

 

1. Qi-Bin Bao, Hansen A Yuan. Artificial disc tecnology. Neurosurg Focus 2000; 9(4): 1-6

2. L. H. S. Sekhon, J. R. Ball. Artificial cervical disc replacement: Principles, types and techniques. Neurology India 2005; 53(4): 445-450.

3. C. Mehren, H. M. Mayer. Artificial cervical disc replacement - An update. Neurology India 2005; 53(4): 440-444.

4. Technology Evaluation Center. Artificial Intervertebral Disc Arthroplasy for Treatment of Degenerative Disc Disease of the Cervical Spine. February 2008, vol 22, No 12.

5. National Institute for Health and Clinical Excellence (NHS). prosthetic intervertebral dis replacement in the cervical spine. November 2005

6. Coric D, Finger F, Boltes P. Prospective Randomized Controlled Study of the Bryan Cervical Disc: Early Clinical Results from a Single Investigational Site. J neurosurg Spine 2006; 4:31-35.

7. Nabham A, Ahlhem F, pitzen T, et al. Disc replacement using Pro-Disc C versus

fusion: a prospective randomized and controlled radiographic and clinical study. Eur Spine J 2007; 16:423-430.

8. Mummaneni P V, Burkus J K, Haid R W, et al. Clinical and radiographi analysis of cervical disc arthroplasty compared with allograft fusion: a randomized controlled clinical trial. J Neurosurg Spine 2007; 6:198-209.

9. Nabban A, Ahlhelm F, Shariat K, et al. The ProDisc-C Prothesis. Clinical and Radiological Experience 1 Year After Surgery. Spine 2007; 32(18): 1935-1941.

10. Sasso R C, Smucker J D, Hacker R J, et al. Artificial Disc Versus Fusion. A Prospective, Randomized Study With 2-Year Follow-up on 99 Patients. Spine 2007; 32(26): 2933–2940.

11. Sun Peng-Fei, Jia Yu-Hua. Cervical disc prosthesis and interbody fusion – a comparative study. International Orthopaedics 2008; 32:103-106.

12. Anderson P A, Sasso R C, Riew K D. Comparison of Adverse Events Between the Brayan Artificial Cervical Disc and Anterior Cervical Arthrodesis. Spine 2008; 33(12): 1305-1312.

© copyright 2014 | Alberto Bicudo Salomao 

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