Nutrição enteral precoce ou sob-demanda na pancreatite aguda. N Engl J Med. 2014; 371: 1983-1993.

 

 

A alimentação por sonda nasoenteral no início do tratamento da pancreatite aguda não é mais eficaz na prevenção da infecção grave ou morte do que iniciar uma dieta oral após 72 horas de internação. Isso é o que nos mostra um estudo controlado randomizado publicado em 20 de Novembro de 2014 pelo New England Journal of Medicine.

 

Neste estudo multicêntrico, que se acredita ser o maior já realizado com foco em  nutrição para pacientes com pancreatite aguda, os pesquisadores designaram aleatoriamente 101 pacientes com pancreatite aguda em um alto risco de complicações para receber alimentação por sonda naso-enteral dentro das primeiras 24 horas, grupo que os investigadores referiram como nutrição enteral precoce. Eles também distribuíram aleatoriamente um segundo grupo de 104 pacientes para receber dieta oral, 72 horas após a apresentação, fornecida com alimentação por sonda, se a dieta não fosse tolerada. A esse segundo grupo foi designado a denominação "sob-demanda" (on-demand).

 

Após 6 meses de follow-up, os investigadores não observaram diferença entre os dois grupos para dois desfechos principais: a morte ou a progressão para infecção grave, como a necrose pancreática infectada, bacteremia, ou pneumonia.

 

Trinta por cento (30 de 101) dos doentes no grupo precoce morreu ou passou a desenvolver uma infecção grave. No grupo sob-demanda, 28 (27%) dos 104 pacientes desenvolveram infecção grave ou morte, por uma razão de risco de 1,07 (95% de intervalo de confiança [IC], 0,79-1,44; P=0,76).

 

Do mesmo modo, a diferença entre os grupos na taxa de infecção grave não foi significativa (p=0,87). Também não houve diferença significativa na taxa de mortalidade entre os grupos: 11% no grupo nutrição enteral precoce versus 7% no grupo sob-demanda (p=0,33). A maioria dos pacientes no grupo que recebeu dieta oral (72, ou 69%) não necessitaram de alimentação por sonda.

 

Embora vários estudos tenham demonstrado maior eficácia da alimentação por sonda enteral em comparação com a alimentação parenteral total no tratamento da pancreatite aguda grave, este estudo investiga se a introdução de alimentação enteral logo após a internação para pacientes com alto risco de complicações ofereceria  maior benefício, como alguns metanalises vem sugerindo. A evidência deste estudo é favorável à oferta de alimentação enteral no prazo de 72 horas de apresentação para os pacientes com prognóstico de pancreatite aguda grave e que portanto, irão se beneficiar de suporte nutricional. A alimentação entérica pode ser administrada por via nasogástrica, naso-duodenal, ou naso-jejunal.

 

Vale ressaltar que os pesquisadores selecionaram para o estudo casos de alto risco, utilizando diversas escalas e marcadores, incluindo score APACHE II maior ou igual a oito, pontuação modificada de  Glasgow maior ou igual a três, ou um nível de proteína C reativa maior que 150 mg/l.

 

Um co-autor relata que recebeu apoio financeiro da Abbott, Baxter, Ipsen, LifeCell, e GlaxoSmithKline fora do trabalho apresentado. Outro co-autor relata que recebe apoio financeiro da ZonMw, MLDS e Fonds NutsOhra, nos Países Baixos, fora do trabalho apresentado. Os outros autores, Dr DiMagno e Dr Vege não declararam relações financeiras relevantes ou outros conflitos de interesse.

 

N Engl J Med. 2014; 371: 1983-1993.  Ler RESUMO (Abstract)

© copyright 2014 | Alberto Bicudo Salomao 

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